quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Dalton Trevisan

Dalton Trevisan é um dos maiores contistas vivo da literatura brasileira. Nascido e residente na cidade de Curitiba escreve seus contos baseados em sua cidade natal abordando principalmente os conflitos amorosos.

Na Semana Literária do Sesc Paraná o contista foi homenagiado e quem esteve em Curitiba pode apreciar e saber um pouco mais sobre suas obras.
Vale a pena conferir, por isso, deixamos aqui um dos seus contos para ser apreciado.

UMA NEGRINHA ACENANDO
 
Seis e meia da tarde, na estrada. Calça azul berrante e blusa vermelha.
- Dá uma carona, moço?
Gostou de ser chamado moço. Ela sorriu: nenhum incisivo superior.
- Suba.
Sandália velha de couro. Sem bolsa.
- De volta do emprego?
- Estou paquerando.
- Não diga. Faz isso todo dia?
- Quando não chove.
- Desde muito na vida?
- Faz um ano. Uma ruiva me trouxe. Ela também paquera.
- Quem foi o primeiro?
- Meu noivo. Queria saber se era moça.
- Ficou grávida?
- Tive um menino. Quase um aninho. Chuva ou sem chuva, são dois pacotes de leite por dia.
- Teus pais sabem?
- Pensam que trabalho de diarista.
- Como é a paquera?
- A gente faz sinal. Até que alguém para. Às vezes fica freguês.
- Aonde vão? Alguma casa?
- Que casa. No caminhão. No mato.
- Você faz tudo?
- O normal.
- Sente algum prazer?
- Difícil. Eles sempre com pressa.
- Quanto você cobra?
- Meia nota.
- Hoje foi bom?
- Não ganhei nada. Tem dia bom. Depende de sorte.
- Qual o pior dia?
- Quando chove. Ou muito frio. Cato graveto e acendo foguinho debaixo da ponte.
- E a hora pior?
- Do almoço. Daí eles não param.
- Você almoça?
- Eu, hein!
- Como você vem?
- Cedinho saímos de casa, eu e a ruiva. Andamos um bom pedaço. Medo de meus pais. Daí ficamos pedindo carona. De repente um para.
- E a volta?
- Mais custosa. Ainda se ameaça chuva.
- Já anoiteceu na estrada?
- Um par de vezes.
- Quando amanhece chovendo?
- A gente não vem.
- Qual foi o melhor dia?
- O dia que peguei sete.
- Já tenho visto na estrada essa calça azul.
- De onde o senhor é?
- Estou de passagem. Há muitas como você?
- Uma em cada curva. Muita menina. De treze e catorze anos. Dão até por amor.
- Onde?
- No matinho. Atrás da moita.
- Não engravidam?
- Lá são bobas feito eu.
- Esses dentes. O que aconteceu? Tão novinha.
- Doía o do meio. Bem aqui na frente.
- Quem te atendeu?
- O dentista do governo.
- Por que tirou os outros?
- Eu disse: “Dói tudo.” E ele: Já viu debulhar milho? Daí arrancou os quatro.
- Chegamos. Aqui você desce.
- Até qualquer dia, moço.
 O sorriso puro dessa grande festa de viver.


Do livro Meu querido assassino, 1983.

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